domingo, 10 de abril de 2022

Mixiba

 

 Um conto escrito em 2006, integrante do livro Tristes Episódios, registrado no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional em 2007

Estava lá há dias. Quantos?, não sabia. Apenas, sentia a ríspida sensaboria do reproche da pedra fria que lhe fazia as vezes de cama, sob uma marquise decrépita. A rua? Brigadeiro Tobias, ali, pertinho da Polícia.

A Kombi parou na esquina, e dela saltaram quatro vultos: quereriam eles tirá-lo das ruas novamente?

Passam das duas da madrugada. Passam a noite, até a manhã, aqueles que só se têm a si mesmos, sem um amanhã. “Menos um grau Celcius”, exibe, frio e calculista, o relógio, ostentando, impávido, o anúncio do barbeador de plástico... Há quanto tempo não fazia a barba?

---- Vamos lá, pessoal. Tá frio, ‘cês num querem dormir lá no albergue essa noite não? Heim? Tomar uma sopa quentinha, que tal?

Não, ele não queria. Deixassem-no morrer de frio, ali, na rua mesmo, que era o seu lugar. Seu não-lugar. E quem lhes dissera que ele se importava? Não, seus senhores, ele, importar-se com o frio?, não! Que pensassem que ele não refletia, não tinha inclinações e opiniões acerca de suas próprias condições...

Que pensassem! Orgulhosos, pensavam que só eles pensavam, e, ah, que ironia, inda pensavam errado!

---- ‘Cês tão é errados se pensam que eu não pensei em nada, ouviram? Desabafo, bafo, cachaça, abafando a voz misericordiosa dos cobertores, que lhe chegava aos ouvidos, vinda do interior da Kombi.

---- Vai pro abrigo, esse aí, pode levar! Inda ouviu, por baixo do ralo cobertor, envolto em frio, miséria e penumbra. Treva.

E não entendeu! Não, não entendeu mesmo! Tinha anos e anos de rua, era já malandro, e nunca antes ocorreu de o coagirem a ir. Nunca o obrigaram a freqüentar o albergue, nem quando aconteceu aquela coisa toda do 15 de maio...

E agora, esse pessoal vinha dizer-lhe o que sentir, gostar e querer? E não quisesse a sopa? E se quisesse dormir no frio? Quem, afinal, pensavam eles que fosse, para obrigá-lo a “ser feliz”, a almejar o que não almejava sua alma. Afinal, tudo não passava de um pretexto para o embotamento: embotamento feliz, embotamento triste... Tanto fazia, para ele.

---- Já falei que não vou! Bradou, irritado, por baixo do cobertor, sem sequer saber se se tratava dele. Não, não me importa se ta frio, quero mais é ficar aqui! E embeiçou. E cobriu-se, todo, enrodiscando-se, qual um gato.

Não entenderam sua relutância, pois todos costumavam rogar por seus préstimos, indispensáveis e salvadores, chegando mesmo a disputar-lhes – exíguos – à tapa. Se o deixassem ficar-se por ali, certamente sentir-se-iam culpados, pois ele morreria congelado.

---- Por quê você não quer vir conosco? Todo mundo vai!

Mas como era burra, deus do céu! Estudara para aquilo, então? E não percebera, a senhorita assistência-social-de-calças-jeans que o problema era justamente aquele? Estar em promiscuidade obrigatória era-lhe insuportável, insuportável. Era o fogo do inferno, dividir banheiros e quartos. Aliviava-se na rua mesmo.

Egoísta? Mas se congelava de frio! Altruísta: outros que fossem beneficiados com o que ele lhes deixava.

---- Então o quê, meu senhor? Perguntaram-lhe, plangidas, as calças-jeans.

---- Eu não quero ver ninguém, falar com ninguém, comer com ninguém, dormir com ninguém! Abro mão do banho, do banheiro – viu, prefiro cagar na rua! Abro mão do calor, porque não quero, absolutamente, estar com ninguém!

Bradou isso e cobriu novamente a cabeça com o outrora um cobertor, encolhendo-se como um feto, transido de frio. Birra.

---- Dêem-lhe outro cobertor e vam’embora, to morrendo de frio! Assim gritou o motorista da Kombi, um velho migrante intolerante com os mendigos porque intolerante com seu passado, porque intolerante consigo mesmo: era dessa intolerância que surgiam, inclusive, a força e a determinação para manter-se em dois sub-empregos, fazer supletivo, “crescer na vida e abandonar as ruas”.

A assistência social que tremia dentro das calças-jeans, cedeu ante tal asserção. Levantou-se, e foi até a Kombi – lotada de miseráveis que aqueciam-se com sua própria promiscuidade -, com o intuito de pegar um cobertor. Mas percebeu que jogar-lhe um cobertor e ir-se embora não resolveria seu problema: muito pelo contrário, equivaleria a jogar a toalha, abandonar a luta, pois, se ela, vestida, agasalhada, padecia com o frio, o que não haveria de sentir e padecer ele, ali, sozinho debaixo daquela marquise, sobre as pedras frias?

O frio dele era um problema dela.

Era assim que se diferenciava das demais pessoas: seu sentir-se-a-si-mesma era um sentindo-se-ao-outro, mais propriamente, à dor do outro. Como um fio-terra, absorvia e sofria as dores do mundo, e, as olheiras e o aspecto cerúleo de sua pele branca denunciavam um mundo assaz dolorido.

Sua piedade, no entanto, era um castigo para os dois.

Não, não o deixaria ali. Insistiria, mas não o deixaria morrer – por algum motivo, tinha convicção de que ele morreria, se ali se deixasse ficar. Não compreendia como um homem podia preferia o frio, aquele frio, aquelas lufadas gélidas, afiadas qual mil lâminas de barbear – há quanto tempo ele não fazia a barba? – ao abrigo, à sopa, à companhia e ao carinho. Não compreendia como um excluído negaria sua única chance de inclusão.

Mas o problema era justamente a companhia. Ele era mendigo, oras! Queriam o quê, diabos? Ou será que inda pensavam que os mendigos chegam à tal situação por serem incompetentes, débeis, vagabundos preguiçosos por natureza, como todo mundo, justo eles? Sim, pensavam assim... sua caridade era, como todas, movida a piedade, que não é outra coisa que sobranceria, uma sobranceria aguda, hipócrita, enaltecida com os mais especiosos recursos: da retórica à sopa rala, mas quente.

“Sou melhor que eles todos, e lhes dou a mão amiga, amparo, porque sou superior e, assim, exerço minha superioridade”. Pensavam que só eles pensavam... e inda pensavam errado.

Coagiam-no a aceitar um lugar fora, dentro da margem débil onde era humilhado: estar fora do negócio, mas dentro do jogo, a depender de suas sobras... Tudo o que ele mais queria era estar fora: marginalizado, em pleno centro, solitário na multidão: ignorando o jogo, rompendo com as regras. O albergue? Era para os que aceitavam um não-ter-lugar – resignados - como se fosse um crime; para os que aceitavam seus lugares fora com gratidão.

O albergue? Era para os fracos, fracassados, para os que não sabiam fazer do estar-à-margem um lugar seu, todo seu, uma opção. Era para amadores.

Ele, ele era diferente. Ele optara por estar onde estava, vadio errante livre de laços e amarras sociais. Laços sociais: laços de gravata, de forca, no pescoço. Não: era submisso às suas condições, às quais, inclusive, se adaptara muito bem, se queriam saber, mas era livre, pombas! Livre como as pombas do centro, que a qualquer momento poderiam deixar a cidade, mesmo famintas.

Monologava: convencia-se, ou, melhor, demovia seu corpo, que tencionava pedir arrego.

---- Vamos lá, arrumo um lugar só pra você! Ela compadecia-se deveras dele, como ninguém até então, malgrado seu.

---- Vam’bora porra! Ele num qué ir? Melhor, já ta lotada mêmo essa porra!... O motorista, impaciente, ligou o motor e acendeu os faróis, coagindo a moça.

Ela virou-se e, a cabeça baixa, caminhou, pé ante pé, para a Kombi lotada de miséria, quase que disposta a deitar a perder todas aquelas almas, se preciso fosse, para salvar àquela que, relutando em aceitar seu carinho, sua piedade, mais a instigava a ajudá-la. Ele, cobrindo novamente o rosto – talvez para não vê-la ir-se – dividiu-se em dois: talvez só quisesse fazer-se de rogado; talvez só quisesse que alguém, uma vez na vida, implorasse e desejasse sua presença, seu bem... Tal vez.

O vento matreiro levantou, com suas garras gélidas, o cobertor esburacado de estopa, bem no momento em que a Kombi partiu, cortando o sereno lancinante, sólido e baço, com os dois feixes dos faróis, qual dois olhos de gato, lotada de fome e frio. Sentiu pesar.

O vento frio e úmido levantou o cobertor, revelando-lhe a pele curtida, azulada de frio na negrura cálida de uma malandragem velada, pele seca e gretada, coberta com camadas e mais camadas de roupas, todas rotas e insuficientes. A barba por fazer, já grisalha, confundia-se com o pelo cinzento de Mixiba, cujos olhinhos fosforescentes lembravam os faróis da Kombi.

E Mixiba, grato, grato como era, enrodilhou-se em sua barba, a tremer, num ronronar monocórdio e confortável, embora entrecortado pelo frio, a arrepiar os pelos, sujos mais ainda macios, todo magreza, fome, frio e gratidão.

---- Não, Mixiba, amanhã melhora, o tempo... se eu fosse com eles você se ficava, e era aí que tudo ia pro brejo.

---- Ron ron ron ron ron ron ron ron ron ron ron...

 

Bruno Walter Caporrino

São Paulo, 10 de outubro 2006

domingo, 6 de junho de 2021

Leitura de trecho do conto "Cavalo de Tróia"

 

Trecho do conto "Cavalo de Tróia", do livro "Tristes Episódios", livro de contos de Bruno Caporrino


Leitura, por parte do autor, de trecho seu conto intitulado "Cavalo de Tróia", integrante do livro de contos "Tristes Episódios", de autoria de Bruno Walter Caporrino. Esse livro de contos foi escrito em 2006 e registrado na Biblioteca Nacional em 2008. Seus episódios gravitam em torno dos episódios conhecidos como "ataques do PCC", mas que foram uma complexa sucessão de agressões e retaliações envolvendo a organização e o Estado. Em 15 de maio de 2006, a leviatânica São Paulo parou totalmente num episódio caótico, em torno do qual gravitam as histórias narradas em contos pelo autor.



Leitura de trecho do conto "Fiat Lux"

O autor Bruno Walter Caporrino lê um trecho de seu conto "Fiat Lux", do livro "Tristes Episódios".

Leitura, por parte do autor, de seu conto intitulado "Fiat Lux", integrante do livro de contos "Tristes Episódios", de autoria de Bruno Walter Caporrino. Esse livro de contos foi escrito em 2006 e registrado na Biblioteca Nacional em 2008. Seus episódios gravitam em torno dos episódios conhecidos como "ataques do PCC", mas que foram uma complexa sucessão de agressões e retaliações envolvendo a organização e o Estado. Em 15 de maio de 2006, a leviatânica São Paulo parou totalmente num episódio caótico, em torno do qual gravitam as histórias narradas em contos pelo autor.



sexta-feira, 15 de maio de 2020

Balas perdidas



O frio viscoso do sol tornava tudo mais nítido, mais colorido, e realçava a negrura densa de seus ondulados cabelos de graúna. O vento fazia-lhe carícias ríspidas com suas mãos gélidas, ressecando a pele de seu rosto jovial.
Estava impaciente. O ponto lotado, o frio do vento, o calor do sol e a demora do ônibus tornaram-na tensa.
--- Desculpe.
Assim falou, um tanto irritada, a moça que esbarrou em seu braço ao passar apressada. “Desculpe!”. O tom agressivo da escusa mais parecia uma artimanha para dizer educada – e cinicamente – “sai da frente!”.
“Desculpe o cacete, galinha!”. Ficaram ainda mais belos os azuis de suas janelas, quando guarnecidos por cenhos entrecerrados com fúria. E o vento a gelar o suor que o sol produzia. Tensão.
Ao contrário do rotineiro caos - do caos que estava na ordem do dia -; ao contrário do pandemônio das barracas de camelô e do stress produzido pelas barraquinhas de CD’s, uma tensão velada impregnava-se aos poros da cidade, corcunda ante o peso de sua desdita, qual um Atlas decrépito a suar medo. Olhares tensos e movimentos esbaforidos preludiavam uma correria estapafúrdia.
E o ônibus que não chegava! Haveria, de fato, a possibilidade de que ficassem sem ônibus, de que a massa se deixasse ficar sem coletivo, de que o coletivo ficasse sem ônibus? Seria mesmo essa massa o público de seu individualismo pusilânime?
Um caos teria tomado conta da cidade. Helicópteros e viaturas: um zunir esdrúxulo de sirenes para todos os lados musicava a tragi-comédia que se desenrolava sob os olhos céticos e cinzentos, vítreos, dos prédios.
Mas ela não se desesperava, apenas irritava-se, passiva, com o caos que lhe assediava. Boatos de saques, universidades metralhadas, metrô fechado e toda aquela gente sendo mandada, em pânico, para suas casas, nada disso a ameaçava: apenas irritava-se com a quebra da rotina, aquela rotina mecânica que tanto lhe fazia bem, porque detestava ter de tomar decisões, porque detestava ter de improvisar, de tão adicta que estava à sua rotina.
--- Balinhas, olha a bala! Halls, um reals!
Irritante, o ar encrespava-lhe os belos cabelos. Irritadas, as pessoas acotovelavam-se pelo passeio, tensas, preocupadas com a guerra que elas mesmas criaram em suas cabeças.
Enfim! Um ônibus! Mas não, acabrunhada, lembrou-se de que os seus são “verdinhos”, e não cor de laranja. A multidão avançou para o ônibus superlotado como um afogado se lança à bóia salva-vidas, empurrando-a, “os desgraçados!”
Recolheu os cadernos que caíram, abaixando-se, a calça jeans com lycra deixando à mostra curvas perfeitas...
--- Uh!, que delícia que delícia que delícia! Olha lá pessoal, essas balas são uma delicia! Hortelã e Eucalipto! Delicia delícia delícia!
Pensou, hipocritamente indignada, que fosse com ela, num primeiro momento. Mas irritou-se, ultrajada, quando notou que era só o pregão malicioso do “mulatinho” que vendia balas.
Estava naquele ponto, naquele mesmo, desde as seis. O faturamento teria sido razoável, se a fome não tivesse apertado ao ponto de empregá-lo em um sanduíche.
“Mas ta valendo, de barriga cheia o mundo é mais colorido”. O cabelo cortado à escovinha, camisa do FDM, tênis da galeria. Boa apresentação era fundamental.
--- Porque você sabe como é né, eu trabalho com o público...
O tabuleiro de madeira, preso ao pescoço por uma corda, tinha sido presente do finado avô, marceneiro de mão cheia e barriga vazia. Quantos anos tinha aquele caixote mesmo? Todos, todos os seus, a idade de seu mundo.
Caixote, como era chamado, vendia balas em ele a tiracolo desde que se entendia por gente. E entendia-se bem com aquele seu fiel amigo.
Os olhos astutos percebiam, entre a multidão, aquele rapaz que ia encontrar-se com sua namorada, aquela secretária que não teria tempo para escovar os dentes depois do almoço... e acertava!
--- Balas refrescantes! Halls é um reals! E mal e mal ia levando a vida. Nas costas...
O ponto lotado, o olor a pânico, e o som estrídulo e metálico das portas sendo baixadas... mau dia para vendas. No próximo, iria ele também, e, se não estivesse muito cheio, iria conquistando os clientes no caminho mesmo.
Ei-lo, o bojudão, pesadão, cansadão, o buzão. Cheio até dizer chega! Como um pedaço de carne jogado em um lago repleto de crocodilos, foi devorado pela multidão afoita por degluti-lo por dentro.
O ônibus. Provavelmente o último, pois havia boatos sobre retirarem-nos das ruas, devidos aos veículos sofrerem risco de serem incendiados pelas quebradas alquebradas daquele canto de Brasil. A multidão uniu-se num bloco coeso de caos e suor.
E ela ali, que gatinha! Vai entrar no mesmo ônibus que ele. De calças justíssimas, mais irritada do que antes, subiu ao coletivo na sua frente – cavalheiro.
Os minutos escorreram pelo asfalto, enquanto o ônibus engolia, glutão, os candidatos a um lotezinho, por menor que fosse. Não houve jeito, teve de deixar muitos nos degraus, e muitos para trás...
“No trem, meu bom, é assim, é o que é. Então centenas vão sentados, e milhares vão em pé...”. Caixote não pôde deixar de recorrer a essa poesia urbana, quando o asfalto moveu-se debaixo do estertorar perpétuo do motor exausto.
Mas Caixote era intrépido, e divertia-o o fato de viajar nos degraus da porta aberta de um entardecer frio. Um frio diferente que, estagnado, cristalizava tudo ao passo em que tudo tornava mais nítido.
O vento frio acariciava-lhe o rosto pardo, de moleque ainda. Caixote desbravava a selva de pedras e reinava em seus meandros como um mateiro, a guia no pescoço. Passando a ponte por baixo de seu pé esquerdo – aquele que ficou dependurado por não haver onde colocá-lo no degrau, - sentiu-se em casa. Ufa!
E o ônibus superlotado zingrava as ruas já desertas, fedendo o pavor de um dia em que Sampa parou. Levava seu alarido sudorento pelas ruas frias de um lusco-fusco desértico, álacre, célere e abarrotado.
Mas as pessoas começaram a descer. E Caixote perdeu-se de sua musa deliciosa, que foi engolida pela turba que pisoteava, truculenta, seu caixote.
De ponto em ponto, fugitivos de uma guerra imaginária abandonavam o coletivo, e pisavam o asfalto sujo como se fosse a última vez. Com o cair das trevas pousou sobre as cabeças um desânimo arrebatador, como se tivessem, todos, perdido uma guerra.
Não havia mais motivo para que Caixote se deixasse ficar dependurado na porta.
--- Sai daí moleque, vou fechar!
Irritado e apreensivo, o motorista do coletivo parecia adentrar uma zona de guerra. Portas fechadas, janelas trancadas, ruas vazias... E o combustível do ônibus para acabar, porque consumido em mega-congestionamentos fúnebres, leviatânicos.
Mais vazio, o coletivo deixou o asfalto para rodar sobre buracos. E entre um solavanco e outro, eis que o caixote cai-lhe bem no DM da galeria, novinho, branco-vermelho.
--- Merda.
Agora sim Caixote irritou-se. E, ainda irritado, chutou o caixote para baixo do banco do cobrador, no exato momento em que o ônibus estacou bruscamente.
---- Vai filha da puta, abre essa porta!
Foi isso mesmo o que ouviu? Caixote não acreditou em seus olhos, quando viu entrar pela porta dianteira um capuz armado cobrindo um homem, seguido de dois outros, com baldes.
--- Desce todo mundo, já! Desce! Abre a porta aí motô!
O pânico fez-se deus e reinou absoluto no interior do coletivo. Agarrado pelo cobrador, Caixote deixou-se levar, atônito, para fora do coletivo, esquecido de si, do seu caixote.
As janelas de emergência foram escancaradas, e o pânico deixou o veículo, grudado ao bradar dos passageiros, que escorria pelas frestas, empurrando-se e gritando. A calça jeans com Lycra da musa de Caixote prendeu-lhe, no entanto, à moldura da janela.
--- Aqui, põe o pé aqui! Um herói, Caixote deu as costas para sua princesa desesperada, que gritou quando o som abafado da gasolina em combustão se fez acompanhar por um clarão mouco, dentro do ônibus.
Inacreditável! Antes que pudesse ver, os três homens haviam sumido, e o ônibus era tomado pelas chamas avassaladoras, famintas, que crepitavam satisfação ao devorarem-no.
--- Você ta legal?
Apavorada, ela assentiu, as mãos trêmulas, lágrimas reluzentes nos olhos azuis a refletirem o fogaréu. Entre gritos e imprecações, a multidão debandou, ficando apenas alguns curiosos espectadores nervosos da derrocada de sua rotina, da carbonização de suas vidas ordenadas. Do fim do mundo, no fim do mundo.
Era o fim! O que fazer? Ah, esse pessoal dos direitos humanos não vê isso? Que ousadia! Por mim, matava tudo...
O espetáculo era tenebroso. O oscilar bruxuleante das chamas lisérgicas era surpreendente como um balé: devoravam o ônibus em minutos.
E assim deixou-se ficar nosso Caixote, alheado a tudo, perplexo, sem saber o que dizer, pensar, ou fazer, até que um brado do motorista o despertou de seu idílio ígneo.
--- Vai pra casa ô moleque, quer virar churrasco?
Despertou bruscamente. Cadê ela, sua princesa? Tinha ido embora, a pé, sozinha, numa pavorosa treva fria de uma noite velada, famigerada, favelada batalha gerada pela cotidiana guerra do ganha-pão.
O sonho incandescente em que se deixara consumir boquiaberto acabou, como que apagado com água quando, despertado pela crueldade ríspida da vida estúpida, personificada pelo cobrador atrabiliário, deu-se conta do mundo que queimava-se.
O sonho acabou quando Caixote acordou, sem cavalo, sem princesa, sem seu caixote. O caixote queimava, desvanecia-se, como seu pobre avô de mãos calejadas, e o doce das balas que derretiam dentro do ônibus contrastava com o amargor da vida besta e desgraçada! Era o fim!
As mãos nos bolsos, Caixote resignou-se a ir a pé os dois quilômetros restantes, sem caixote, sem princesa, sem cavalo, sem cidade, sem amparo. Sem futuro e sem motivo para ter um.
--- A vida é essa merda mesmo.
O fogo a arder, límpido e esguio, entreteve sua mente pelas ruas desertas de fios emaranhados e miséria decretada, até a porta de madeira de sua casa de único cômodo, onde o esperava, de braços cruzados e boca aberta, a privação.
E a cidade acontecendo, lá fora, em seu silêncio apavorado, não importava mais. Só lhe importava o fogo que consumia o ônibus e distraía sua mente, quando a noite – em que dormiu mal por causa do frio -, veio assolar-lhe a existência pobre, com suas garras gélidas, por baixo do cobertor fino e esburacado.


 São Paulo,15 de maio de 2006

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Pós-guerra do desconcerto: um documentário videoclíptico em preto e branco 35mm


“Pós-guerra do desconserto”
Autoria: Bruno Walter Caporrino
Roteiro, fotografias, edição: Bruno Walter Caporrino
Curta metragem documental videoclíptico feito com fotografias preto e branco 35mm do autor
Trilha sonora: “Blue shadows in the street”, de Dave Brubeck Quartet, álbum “Time further out”.
Duração:  5 minutos e 40 segundos
P&B
Situação: Praça da Sé, centro de São Paulo. Link para visualizar no YouTube:
https://youtu.be/Ub9C7ybPFQA

O objetivo de minhas fotografias e contos sempre foi estimular uma reflexão sobre a  arte, narrativa e fotográfica como construto narrativo vário, à luz (já que se trata essencialmente de luz) dos discursos construídos sobre "alteridades", visando explorar visões não sobre "os Outros" - e um debate sobre isso será iniciado aqui em breve - que não existem senão como funções (f) de determinados nós, mas sim sobre o ato de fotografar como um ato de aproximação ou negação dos outros através da maior ou menor projeção do observador e seus valores no mundo que apreende através da fotografia.

Assim, desde que comecei a me arriscar pelo universo da fotografia, nos idos de 2006, idealizei um roteiro para um curta(curtíssimo)-metragem, de 1 minuto de duração, intitulado "Pós-Guerra do Desconcerto".

A ideia surgiu em minha mente em um dos inúmeros dias em que eu passava horas errando pelo Centro de São Paulo, onde ainda morava (me escondia?). Naquele período, eu estava finalizando a edição do (até então) inédito livro de contos intitulado Tristes Episódios, cujos episódios, inspirados em fatos transpirados por mim na realidade, giravam todos em torno dos fatídicos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) às Polícia Militar e Civil, e vice-versa, ocorridos em maio daquele ano, de modo que o livro de contos foi quase que escrito ao vivo, nas madrugadas em que voltava de casa carregado com a energia do que via nas ruas desertas onde uma guerra muda (que, infelizmente, não mudou nada) deixava as pessoas ainda mais mudas.

Era um período de convulsão social, e episódios trágicos - mais do que tristes - tiveram como palco a Praça da Sé. Em uma das tardes frias de maio em que flanava pelo centro, depois de escrever o livro - como eu disse, estava editando o material - dei por mim em plena Praça da Sé, onde sempre acabava chegando para usufruir do convívio solitário com as multidões que, ali, mais solitárias do que nunca, sempre foram ,para mim, mais honestas e ricas, como sempre, que o roteiro veio à minha mente. Veio com nome, trilha sonora (o objetivo era usar a música Roads do Portishead), sequência, tudo.

Foi concebido justamente como um filme de 1 minuto montado a partir de fotografias preto e branco analógicas. Mostrei a idéia ao meu grande amigo Meduza, que gostou e propôs de fazermos. Mas... só agora (e por nenhum minuto sequer esqueci a idéia) senti que possuía fotografias minimamente utilizáveis...

Das fotografias - e, portanto, do sentido de tudo isso
Toda obra deve ter uma biografia. Mais do que seu autor, a obra deve ser contextualizada. Qualquer obra. Arquitetos, críticos de arte, e engenheiros, todos devem concordar comigo. Bem, o fato é que essas fotografias dos moradores de rua que sempre, sempre, sempre ocuparam minha atenção, minhas lentes, minha mente, minha pena, dos quais sempre fiz protagonistas em qualquer tentativa de expressão que eu conseguisse (porque sua marginalidade é muito mais do que se pensa e enxerga  nos poucos momentos em que as pessoas os pensam e os enxergam...) realizar, foram feitas sob uma ótica especial.

Todas as tomadas foram feitas em película Ilford, ISO 100, com a Zeiss Ikon Contaflex que eu venero tanto. E foram feitas majoritariamente em 2011. Mas, deve perguntar o leitor: como, morando no Amapá, em 2011, você fez fotografias de moradores de rua na Praça da Sé?  Nas poucas vezes que eu visitava São Paulo, onde ia para encontrar a Musa e Mecenas Mari, detinha-me na velha Praça onde me formei verdadeiramente como antropólogo e indigenista (porque é espaço de minhas primeiras e mais marcantes experiências e reflexões sobre a alteridade, sobre ser outros), com a Zeiss a tiracolo e uma que outra película com algumas poses ainda por deflagar.

Vindo de Belém, Afuá, Breves, Serra do Navio, Oiapoque, com mais da metade das películas deflagradas, eu aterrisava em São Paulo com algumas poses ainda por fazer. E aproveitava para documentar-me, a mim mesmo, através de minha percepção sobre os velhos moradores que sempre ocuparam minha atenção...

Esse fato ganha outro valor quando as películas, ainda inteiras, sem cortes, são observadas: vê-se fotografias dos wajãpi, na terra indígena wajãpi, onde fotografo a maior parte do tempo, carregando açaí ou panakus com caça, e, abruptamente, prédios, cornijas e estatuária da Sé, a estátua do missionário catequizador dos índios e inaugurador da pobreza e da marginalidade oprimida que rodeia sua própria estátua, José de Anchieta.

Esse choque, aparentemente abrupto, não me surpreendeu. Descobri que, de fato, a fotografia pode nos permitir entrever os vieses de nossos próprios olhares. Descobrir-se a si mesmo através de uma observação mais detida sobre como se observa o mundo, e os outros, é missão compartilhada entre a fotografia e a antropologia.

O fato é que os indígenas catequizados pelo grande instaurador da megalópole desvairada na qual os netos desses indígenas não têm espaço senão nas periferias, oprimidos e ameaçados, ou ao chão, ao relento, às margens em pleno Centro, retratados no filme fotográfico lado a lado com os indígenas wajãpi ou com os caboclos de Afuá em cujos estaleiros me detenho a investigar sua arte náutica tão indígena, são o contraponto icônico em torno do qual a mensagem se dá.

Depois dessa longa explicação, (e arte, se é boa, prescinde de explicação...), segue o filme (que não é propriamente um filme, mas sim um método para expor fotografias concatenadas em uma sequência narrativa corroborada, como um cânon, pela trilha sonora).

Abaixo do filme, para quem quiser conferir, publico também o roteiro, tal como foi concebido originalmente em 2006.

O curta consiste basicamente na transmissão de um sentimento especial, que tive todas as vezes em que andei pela praça, e observei seus habitantes, e sua desolação. Por isso, a idéia é a de que seja um vídeo-clip. Mudo.

Tive a impressão de que todos, ali, tiveram suas vidas roubadas de si mesmos, tal como, parece-me, ocorre após uma guerra. Tive a sensação de que o mundo simplesmente se desfizera, não apenas para mim, que saía de minha normalidade, mas também para eles, como deve ser quando todos seus parentes morrem queimados por napalm, e você, sozinho, depois de ver tantas atrocidades, refugia-se do mundo, no mundo – que é a própria loucura.

Eles vagam, ao léu, ostentando nos andrajos com os quais cobrem seus esmarridos corpos, toda a miséria a que o olhar comum pensa que foram relegados. Soldados de uma guerra perdida, sem nação, condecorações, armas; sem bandeira sobre o caixão. Sem nomes, sem memoriais: dos quais a sociedade, em sua batalha hecatômbica pelo pão, não quererá se recordar. Para nós, engomadinhos de estômagos e bolsos forrados. Porque é muito mais do que isso. Exercem sua humanidade e sua capacidade de agir, criam códigos, estabelecem signos, interpretações, condutas, valores. Relações. Estar à margem (do sonho burguês do castelinho da Disney) não é estar fora da humanidade: o que me atrai nessas pessoas é justamente mostrarem, concretamente, que é exatamente o contrário...

Mas esse fascínio que eles despertam em mim não faz com que os exotize, ou idealize. Sua vida é dura.

Sinto-me, ali, como se uma bomba tivesse caído, e congelado o tempo, como se vivêssemos, todos, no vácuo que sua deflagração deixa.

Andrajos. Pobreza. Sangue espirrado contra a parede central da Catedral – ao lado direito da escada. Ainda lá está: podem conferir.

Mas eu, sinceramente, ao olhá-los nos olhos – coisa a que o olhar comum teme absurdamente – vejo, apenas, inadequação, mal-estar, dúvida e inquietação.

Isso faz deles verdadeiros filósofos, para mim.

São dúvida, inquietação, são questionamento: o questionamento encarnado em seus ossos sem carne. Em suas barbas grisalhas, em seus conffabulares fabulsosos, acerca das vultuosas somas de sua miséria (uma cachaça, um relógio quebrado, um par de sapatos), levam suas vidas, e todas as nossas, no lombo. Um pregão de fome, em que se negocia sobras, migalhas, com o afinco de um acionista da Microsoft.

Vagam, e confabulam.

Alguns, seminus, dialogam com os coqueiros, personagens imaginários, companheiros de sua solidão pública, em pleno centro da cidade mais esbaforida e movimentada do Brasil.

Certo sábado, estando eu por lá, vi dois homens a confabularem, como se planejassem um crime. Acheguei-me, de manso, e o que ouvi foi uma discussão metafísico-religiosa digna do medievo: deus, existindo todo em sua grandeza, não poderia caber no cérebro humano, e nem nas páginas da Bíblia.

Um homem, jovem, cabelos tingidos de loiro, malgrado a negritude de sua tez, trazia ao ombro uma bolsa rosa, e calçava apertadíssimos scarpins vermelhos. Rebolava, afetando uma feminilidade impossível, e, em seu sorriso, em suas gargalhadas, dirigidas a personagens imaginários aos quais dirigias gritinhos e gracejos, eram verdadeiramente plangentes.

Nesse mesmo dia, a praça parecia mais desolada, devido à pressão atmosférica, e ao ar opresso que dela decorria. O peso do mundo parecia todo estar ali, centrado no marco central da praça, que aponta para todas as direções de onde vieram esses homens: minas, Goiás, Curitiba...

Nesse dia, enfim, vi o homem afeminado, cuja esquizofrenia causava uma esquizofrênica sensação de compaixão e medo. Pregadores berravam sua fé – captei uma preleção bonita, sobre Paulo e sua conversão. O homem não mencionou Dimas.

Havia uma verdadeira fila deles, que disputavam o quadrado de giz que era sua igreja. Sobre a pedra. Sobre Pedro.

Muitos outros pregadores disputavam a atenção dos mendigos, em diversos quadrados. Em torno de um, que jazia bem sob a sombra da enorme e ridiculamente irônica estátua do jesuíta conversor desta gente, aglomerava-se muita gente: ele dispunha de uma caixa de som e um microfone.

Mas, pasmem! Ao lado, exatamente ao lado dele, havia um grupo a tocar samba, com pandeiro, triângulo, cavaco. Muitos homens puseram-se ao redor, batucando em pastas de documentos e latas de lixo arrancadas dos postes.

Um deles, de boné, dançava, como em um transe, a sorrir toda sua dor. Juro-lhes: era um sorriso de dor. Uma dor alegre, pungente, e dançava, e dançava, e dançava...

O pregador, ao lado, enfurecia-se contra os infiéis. Jovens passaram em seus skates, prostitutas passaram, a rir-se do dançarino frenético.

E o mundo havia acabado, ali.

E a guerra que engendrou seu fim parecia ser perene. O dia, com uma camada finíssima de nuvens a filtrar o sol, de mormasso, seria eterno.

Modus Facendi

A idéia é fazer um curta-documental sem som algum, além de Roads: chegar à praça, e filmar. Diversos takes. Depois, editar, e inserir a música. O clipe seria a estética das impressões que eu queria tanto transmitir. Pensei em filmar os pregadores, e seus quadrados de giz. O jesuíta, ao pé do qual se sentam netos de índias estupradas por ele mesmo. Seus bisnetos.

A edição consistiria na montagem de minúsculos quadros, takes, estórias inter-cruzadas, algo assim:

Tudo em ritmo normal, P&B, com muita abertura, para que, com essa estética estourada e chiaroscura, tenha-se a impressão de algo onírico. Dia nublado e quente, com alta pressão. Velocidade: Slow-Motion, com leves acelerações, nos pequenos quadros de closes.

1 – Close: torre da Catedral.
2 – Close: pregador, com a bíblia nas mãos. A Catedral ao fundo.
3 – Panorâmica: a Praça. Pode ser um giro, do alto do marco central, algo espiralado, que comece do chão (uma rosa dos ventos de mármore), e vá subindo, até tocar com a objetiva os rostos dos pregadores, dos mendigos, dos passantes – com slow-motions aí – e, por fim, as torres gloriosas da Sé.
4 – Close: o rosto de um mendigo.
5 – Close: a parte do marco central que indica Goiás.
5 – Close: o rosto de outro mendigo.
6 – Close: outra faceta do marco, indicando Minas.
7 – Panorâmica. Foco nos confabulantes.
8 – Close: homem dormindo.
9 – Plano americano: homem a falar sozinho.
10 – Pregador, a falar sozinho.
11 – Close: o rosto de um mendigo.
12 – Close: outra faceta do marco. Paraíba.
13 – O pagode.
14 – Close: o sorriso do dançarino frenético.
15– plano seqüência videoclíptico, acelerado:
Torres da Catderal,
Pregadores,
Personagem a falar sozinho,
o Pagode,
o Jesuíta.
16 – Fade.

Publicado originalmente no extinto blog Hileia Mundi, em janeiro de 2013.


domingo, 10 de maio de 2020

À guisa de índice


Foto: Bruno Walter Caporrino
Caos! Uma cidade esbaforida esbarra em si mesma a cada esquina, deglutindo-se, devorando-se, como num certo quadro de Goya. Tiros, antes inaudíveis – porque nunca os quis ouvir – gritos mudos – porque nunca os quis gritar –, irrompem e deflagram, cortando a calada qual lâmina fria. Uma Leviatã tropical (página 5)  ensandecida brada aos quatro pontos cardeais (vermelhos de sangue) sua empáfia, sua prosápia prosopopéica, elitista e excludente. Tomada pelo pânico de que se fez vítima voluntária, a cidade solitária realça suas feições, e perde as papas que ainda guardava em suas línguas de concreto. Ruge, a ouvir, entre buzinas e sirenes, as Balas perdidas (página 15), que não olham a quem atingem, seja um pobre Mixiba (página 26), seja um pobre trabalhador: mas a Cidade teme, teme que suma dentro de sua própria periferia, sufocando-se com suas plumas, arames farpados e paetês baratos, produzidos com mão-de-obra escrava, para seu carnaval de congestionamento, pânico, azáfama e sítio. Estado de exceção, onde a regra é o caos. E a multidão foge pelos elevadores, Serviço e social (página 35), acotovelando-se, rumo aos ônibus incendiados,  fugindo de um inimigo invisível – porque, embora seja vaidosa, recusou qualquer espelho. Presente de grego! Mão-de-obra barata, pontes e viadutos, camelôs e Salas São Paulo: um Cavalo de tróia (página 44) incendiário fulmina a colméia. Suicídio coletivo. Na via crucis hedionda de seu cotidiano sorumbático, a multidão não se vê a si própria, e, por isso, não sabe de onde vem aquele inimigo distante, “estranho”, que a ameaça de chofre com bombas incendiárias e policiais assassinados. O troco. Repressão perversa. Uma guerra cotidiana transformou sua paz belicosa em uma batalha silente, lisérgica, homérica: nada além de homens. Só homens. Uma guerra surda exacerbada no dia em que as peças brancas e pretas acirraram o jogo e deram xeques-mates dramáticos. Blefe? Guerra? Uma dinâmica sádica embala a Marcha fúnebre (página 62) quotidiana - sem Chopin. E a multidão abandona o coletivo, então em chamas, e digladia-se, formigueiro incônscio de sua desdita, fugindo de si mesma: Para além do bem e do mal (página 70). Nada de novo no front: nessa guerra, chamada Estado de São Paulo, a vítima é o carrasco. E tudo voltou à normalidade, na semana seguinte. E tudo voltou à sua ordem: o sangrento esquecimento. Essas páginas, entretanto, não ousam não permitir que mais um Carandiru suma do mapa – da memória, do tempo paulistano. Pretende-se um monumento ao Mal-estar (página 82), onde o homenageado é você. Todos nós. E onde o mote é nossa guerra, de nós todos. Fiat lux! (página 89).

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Foto: Bruno Walter Caporrino Caos! Uma cidade esbaforida esbarra em si mesma a cada esquina, deglutindo-se, devorando-se, como num cer...