Estava lá há dias. Quantos?, não sabia. Apenas,
sentia a ríspida sensaboria do reproche da pedra fria que lhe fazia as vezes de
cama, sob uma marquise decrépita. A rua? Brigadeiro Tobias, ali, pertinho da
Polícia.
A Kombi parou na esquina, e dela saltaram quatro
vultos: quereriam eles tirá-lo das ruas novamente?
Passam das duas da madrugada. Passam a noite, até a
manhã, aqueles que só se têm a si mesmos, sem um amanhã. “Menos um grau
Celcius”, exibe, frio e calculista, o relógio, ostentando, impávido, o anúncio
do barbeador de plástico... Há quanto tempo não fazia a barba?
---- Vamos lá, pessoal. Tá frio, ‘cês num querem
dormir lá no albergue essa noite não? Heim? Tomar uma sopa quentinha, que tal?
Não, ele não queria. Deixassem-no morrer de frio,
ali, na rua mesmo, que era o seu lugar. Seu não-lugar. E quem lhes dissera que
ele se importava? Não, seus senhores, ele, importar-se com o frio?, não! Que
pensassem que ele não refletia, não tinha inclinações e opiniões acerca de suas
próprias condições...
Que pensassem! Orgulhosos, pensavam que só eles
pensavam, e, ah, que ironia, inda pensavam errado!
---- ‘Cês tão é errados se pensam que eu não pensei
em nada, ouviram? Desabafo, bafo, cachaça, abafando a voz misericordiosa dos
cobertores, que lhe chegava aos ouvidos, vinda do interior da Kombi.
---- Vai pro abrigo, esse aí, pode levar! Inda
ouviu, por baixo do ralo cobertor, envolto em frio, miséria e penumbra. Treva.
E não entendeu! Não, não entendeu mesmo! Tinha anos
e anos de rua, era já malandro, e nunca antes ocorreu de o coagirem a ir. Nunca
o obrigaram a freqüentar o albergue, nem quando aconteceu aquela coisa toda do
15 de maio...
E agora, esse pessoal vinha dizer-lhe o que sentir,
gostar e querer? E não quisesse a sopa? E se quisesse dormir no frio? Quem,
afinal, pensavam eles que fosse, para obrigá-lo a “ser feliz”, a almejar o que
não almejava sua alma. Afinal, tudo não passava de um pretexto para o
embotamento: embotamento feliz, embotamento triste... Tanto fazia, para ele.
---- Já falei que não vou! Bradou, irritado, por baixo
do cobertor, sem sequer saber se se tratava dele. Não, não me importa se ta
frio, quero mais é ficar aqui! E embeiçou. E cobriu-se, todo, enrodiscando-se,
qual um gato.
Não entenderam sua relutância, pois todos costumavam
rogar por seus préstimos, indispensáveis e salvadores, chegando mesmo a
disputar-lhes – exíguos – à tapa. Se o deixassem ficar-se por ali, certamente
sentir-se-iam culpados, pois ele morreria congelado.
---- Por quê você não quer vir conosco? Todo mundo
vai!
Mas como era burra, deus do céu! Estudara para
aquilo, então? E não percebera, a senhorita assistência-social-de-calças-jeans
que o problema era justamente aquele? Estar em promiscuidade obrigatória
era-lhe insuportável, insuportável. Era o fogo do inferno, dividir banheiros e
quartos. Aliviava-se na rua mesmo.
Egoísta? Mas se congelava de frio! Altruísta: outros
que fossem beneficiados com o que ele lhes deixava.
---- Então o quê, meu senhor? Perguntaram-lhe,
plangidas, as calças-jeans.
---- Eu não quero ver ninguém, falar com ninguém,
comer com ninguém, dormir com ninguém! Abro mão do banho, do banheiro – viu,
prefiro cagar na rua! Abro mão do calor, porque não quero, absolutamente, estar
com ninguém!
Bradou isso e cobriu novamente a cabeça com o
outrora um cobertor, encolhendo-se como um feto, transido de frio. Birra.
---- Dêem-lhe outro cobertor e vam’embora, to
morrendo de frio! Assim gritou o motorista da Kombi, um velho migrante
intolerante com os mendigos porque intolerante com seu passado, porque
intolerante consigo mesmo: era dessa intolerância que surgiam, inclusive, a
força e a determinação para manter-se em dois sub-empregos, fazer supletivo,
“crescer na vida e abandonar as ruas”.
A assistência social que tremia dentro das
calças-jeans, cedeu ante tal asserção. Levantou-se, e foi até a Kombi – lotada
de miseráveis que aqueciam-se com sua própria promiscuidade -, com o intuito de
pegar um cobertor. Mas percebeu que jogar-lhe um cobertor e ir-se embora não
resolveria seu problema: muito pelo contrário, equivaleria a jogar a toalha,
abandonar a luta, pois, se ela, vestida, agasalhada, padecia com o frio, o que
não haveria de sentir e padecer ele, ali, sozinho debaixo daquela marquise,
sobre as pedras frias?
O frio dele era um problema dela.
Era assim que se diferenciava das demais pessoas:
seu sentir-se-a-si-mesma era um sentindo-se-ao-outro, mais propriamente, à dor
do outro. Como um fio-terra, absorvia e sofria as dores do mundo, e, as
olheiras e o aspecto cerúleo de sua pele branca denunciavam um mundo assaz
dolorido.
Sua piedade, no entanto, era um castigo para os
dois.
Não, não o deixaria ali. Insistiria, mas não o
deixaria morrer – por algum motivo, tinha convicção de que ele morreria, se ali
se deixasse ficar. Não compreendia como um homem podia preferia o frio, aquele
frio, aquelas lufadas gélidas, afiadas qual mil lâminas de barbear – há quanto
tempo ele não fazia a barba? – ao abrigo, à sopa, à companhia e ao carinho. Não
compreendia como um excluído negaria sua única chance de inclusão.
Mas o problema era justamente a companhia. Ele era
mendigo, oras! Queriam o quê, diabos? Ou será que inda pensavam que os mendigos
chegam à tal situação por serem incompetentes, débeis, vagabundos preguiçosos
por natureza, como todo mundo, justo eles? Sim, pensavam assim... sua caridade
era, como todas, movida a piedade, que não é outra coisa que sobranceria, uma
sobranceria aguda, hipócrita, enaltecida com os mais especiosos recursos: da
retórica à sopa rala, mas quente.
“Sou melhor que eles todos, e lhes dou a mão amiga,
amparo, porque sou superior e, assim, exerço minha superioridade”. Pensavam que
só eles pensavam... e inda pensavam errado.
Coagiam-no a aceitar um lugar fora, dentro da margem
débil onde era humilhado: estar fora do negócio, mas dentro do jogo, a depender
de suas sobras... Tudo o que ele mais queria era estar fora: marginalizado, em
pleno centro, solitário na multidão: ignorando o jogo, rompendo com as regras.
O albergue? Era para os que aceitavam um não-ter-lugar – resignados - como se
fosse um crime; para os que aceitavam seus lugares fora com gratidão.
O albergue? Era para os fracos, fracassados, para os
que não sabiam fazer do estar-à-margem um lugar seu, todo seu, uma opção. Era
para amadores.
Ele, ele era diferente. Ele optara por estar onde
estava, vadio errante livre de laços e amarras sociais. Laços sociais: laços de
gravata, de forca, no pescoço. Não: era submisso às suas condições, às quais,
inclusive, se adaptara muito bem, se queriam saber, mas era livre, pombas!
Livre como as pombas do centro, que a qualquer momento poderiam deixar a
cidade, mesmo famintas.
Monologava: convencia-se, ou, melhor, demovia seu
corpo, que tencionava pedir arrego.
---- Vamos lá, arrumo um lugar só pra você! Ela
compadecia-se deveras dele, como ninguém até então, malgrado seu.
---- Vam’bora porra! Ele num qué ir? Melhor, já ta
lotada mêmo essa porra!... O motorista, impaciente, ligou o motor e acendeu os
faróis, coagindo a moça.
Ela virou-se e, a cabeça baixa, caminhou, pé ante
pé, para a Kombi lotada de miséria, quase que disposta a deitar a perder todas
aquelas almas, se preciso fosse, para salvar àquela que, relutando em aceitar
seu carinho, sua piedade, mais a instigava a ajudá-la. Ele, cobrindo novamente
o rosto – talvez para não vê-la ir-se – dividiu-se em dois: talvez só quisesse
fazer-se de rogado; talvez só quisesse que alguém, uma vez na vida, implorasse
e desejasse sua presença, seu bem... Tal vez.
O vento matreiro levantou, com suas garras gélidas,
o cobertor esburacado de estopa, bem no momento em que a Kombi partiu, cortando
o sereno lancinante, sólido e baço, com os dois feixes dos faróis, qual dois
olhos de gato, lotada de fome e frio. Sentiu pesar.
O vento frio e úmido levantou o cobertor,
revelando-lhe a pele curtida, azulada de frio na negrura cálida de uma
malandragem velada, pele seca e gretada, coberta com camadas e mais camadas de
roupas, todas rotas e insuficientes. A barba por fazer, já grisalha,
confundia-se com o pelo cinzento de Mixiba, cujos olhinhos fosforescentes
lembravam os faróis da Kombi.
E Mixiba, grato, grato como era, enrodilhou-se em
sua barba, a tremer, num ronronar monocórdio e confortável, embora entrecortado
pelo frio, a arrepiar os pelos, sujos mais ainda macios, todo magreza, fome,
frio e gratidão.
---- Não, Mixiba, amanhã melhora, o tempo... se eu
fosse com eles você se ficava, e era aí que tudo ia pro brejo.
---- Ron ron ron ron ron ron ron ron ron ron ron...
Bruno Walter Caporrino
São Paulo, 10 de
outubro 2006