domingo, 10 de abril de 2022

Mixiba

 

 Um conto escrito em 2006, integrante do livro Tristes Episódios, registrado no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional em 2007

Estava lá há dias. Quantos?, não sabia. Apenas, sentia a ríspida sensaboria do reproche da pedra fria que lhe fazia as vezes de cama, sob uma marquise decrépita. A rua? Brigadeiro Tobias, ali, pertinho da Polícia.

A Kombi parou na esquina, e dela saltaram quatro vultos: quereriam eles tirá-lo das ruas novamente?

Passam das duas da madrugada. Passam a noite, até a manhã, aqueles que só se têm a si mesmos, sem um amanhã. “Menos um grau Celcius”, exibe, frio e calculista, o relógio, ostentando, impávido, o anúncio do barbeador de plástico... Há quanto tempo não fazia a barba?

---- Vamos lá, pessoal. Tá frio, ‘cês num querem dormir lá no albergue essa noite não? Heim? Tomar uma sopa quentinha, que tal?

Não, ele não queria. Deixassem-no morrer de frio, ali, na rua mesmo, que era o seu lugar. Seu não-lugar. E quem lhes dissera que ele se importava? Não, seus senhores, ele, importar-se com o frio?, não! Que pensassem que ele não refletia, não tinha inclinações e opiniões acerca de suas próprias condições...

Que pensassem! Orgulhosos, pensavam que só eles pensavam, e, ah, que ironia, inda pensavam errado!

---- ‘Cês tão é errados se pensam que eu não pensei em nada, ouviram? Desabafo, bafo, cachaça, abafando a voz misericordiosa dos cobertores, que lhe chegava aos ouvidos, vinda do interior da Kombi.

---- Vai pro abrigo, esse aí, pode levar! Inda ouviu, por baixo do ralo cobertor, envolto em frio, miséria e penumbra. Treva.

E não entendeu! Não, não entendeu mesmo! Tinha anos e anos de rua, era já malandro, e nunca antes ocorreu de o coagirem a ir. Nunca o obrigaram a freqüentar o albergue, nem quando aconteceu aquela coisa toda do 15 de maio...

E agora, esse pessoal vinha dizer-lhe o que sentir, gostar e querer? E não quisesse a sopa? E se quisesse dormir no frio? Quem, afinal, pensavam eles que fosse, para obrigá-lo a “ser feliz”, a almejar o que não almejava sua alma. Afinal, tudo não passava de um pretexto para o embotamento: embotamento feliz, embotamento triste... Tanto fazia, para ele.

---- Já falei que não vou! Bradou, irritado, por baixo do cobertor, sem sequer saber se se tratava dele. Não, não me importa se ta frio, quero mais é ficar aqui! E embeiçou. E cobriu-se, todo, enrodiscando-se, qual um gato.

Não entenderam sua relutância, pois todos costumavam rogar por seus préstimos, indispensáveis e salvadores, chegando mesmo a disputar-lhes – exíguos – à tapa. Se o deixassem ficar-se por ali, certamente sentir-se-iam culpados, pois ele morreria congelado.

---- Por quê você não quer vir conosco? Todo mundo vai!

Mas como era burra, deus do céu! Estudara para aquilo, então? E não percebera, a senhorita assistência-social-de-calças-jeans que o problema era justamente aquele? Estar em promiscuidade obrigatória era-lhe insuportável, insuportável. Era o fogo do inferno, dividir banheiros e quartos. Aliviava-se na rua mesmo.

Egoísta? Mas se congelava de frio! Altruísta: outros que fossem beneficiados com o que ele lhes deixava.

---- Então o quê, meu senhor? Perguntaram-lhe, plangidas, as calças-jeans.

---- Eu não quero ver ninguém, falar com ninguém, comer com ninguém, dormir com ninguém! Abro mão do banho, do banheiro – viu, prefiro cagar na rua! Abro mão do calor, porque não quero, absolutamente, estar com ninguém!

Bradou isso e cobriu novamente a cabeça com o outrora um cobertor, encolhendo-se como um feto, transido de frio. Birra.

---- Dêem-lhe outro cobertor e vam’embora, to morrendo de frio! Assim gritou o motorista da Kombi, um velho migrante intolerante com os mendigos porque intolerante com seu passado, porque intolerante consigo mesmo: era dessa intolerância que surgiam, inclusive, a força e a determinação para manter-se em dois sub-empregos, fazer supletivo, “crescer na vida e abandonar as ruas”.

A assistência social que tremia dentro das calças-jeans, cedeu ante tal asserção. Levantou-se, e foi até a Kombi – lotada de miseráveis que aqueciam-se com sua própria promiscuidade -, com o intuito de pegar um cobertor. Mas percebeu que jogar-lhe um cobertor e ir-se embora não resolveria seu problema: muito pelo contrário, equivaleria a jogar a toalha, abandonar a luta, pois, se ela, vestida, agasalhada, padecia com o frio, o que não haveria de sentir e padecer ele, ali, sozinho debaixo daquela marquise, sobre as pedras frias?

O frio dele era um problema dela.

Era assim que se diferenciava das demais pessoas: seu sentir-se-a-si-mesma era um sentindo-se-ao-outro, mais propriamente, à dor do outro. Como um fio-terra, absorvia e sofria as dores do mundo, e, as olheiras e o aspecto cerúleo de sua pele branca denunciavam um mundo assaz dolorido.

Sua piedade, no entanto, era um castigo para os dois.

Não, não o deixaria ali. Insistiria, mas não o deixaria morrer – por algum motivo, tinha convicção de que ele morreria, se ali se deixasse ficar. Não compreendia como um homem podia preferia o frio, aquele frio, aquelas lufadas gélidas, afiadas qual mil lâminas de barbear – há quanto tempo ele não fazia a barba? – ao abrigo, à sopa, à companhia e ao carinho. Não compreendia como um excluído negaria sua única chance de inclusão.

Mas o problema era justamente a companhia. Ele era mendigo, oras! Queriam o quê, diabos? Ou será que inda pensavam que os mendigos chegam à tal situação por serem incompetentes, débeis, vagabundos preguiçosos por natureza, como todo mundo, justo eles? Sim, pensavam assim... sua caridade era, como todas, movida a piedade, que não é outra coisa que sobranceria, uma sobranceria aguda, hipócrita, enaltecida com os mais especiosos recursos: da retórica à sopa rala, mas quente.

“Sou melhor que eles todos, e lhes dou a mão amiga, amparo, porque sou superior e, assim, exerço minha superioridade”. Pensavam que só eles pensavam... e inda pensavam errado.

Coagiam-no a aceitar um lugar fora, dentro da margem débil onde era humilhado: estar fora do negócio, mas dentro do jogo, a depender de suas sobras... Tudo o que ele mais queria era estar fora: marginalizado, em pleno centro, solitário na multidão: ignorando o jogo, rompendo com as regras. O albergue? Era para os que aceitavam um não-ter-lugar – resignados - como se fosse um crime; para os que aceitavam seus lugares fora com gratidão.

O albergue? Era para os fracos, fracassados, para os que não sabiam fazer do estar-à-margem um lugar seu, todo seu, uma opção. Era para amadores.

Ele, ele era diferente. Ele optara por estar onde estava, vadio errante livre de laços e amarras sociais. Laços sociais: laços de gravata, de forca, no pescoço. Não: era submisso às suas condições, às quais, inclusive, se adaptara muito bem, se queriam saber, mas era livre, pombas! Livre como as pombas do centro, que a qualquer momento poderiam deixar a cidade, mesmo famintas.

Monologava: convencia-se, ou, melhor, demovia seu corpo, que tencionava pedir arrego.

---- Vamos lá, arrumo um lugar só pra você! Ela compadecia-se deveras dele, como ninguém até então, malgrado seu.

---- Vam’bora porra! Ele num qué ir? Melhor, já ta lotada mêmo essa porra!... O motorista, impaciente, ligou o motor e acendeu os faróis, coagindo a moça.

Ela virou-se e, a cabeça baixa, caminhou, pé ante pé, para a Kombi lotada de miséria, quase que disposta a deitar a perder todas aquelas almas, se preciso fosse, para salvar àquela que, relutando em aceitar seu carinho, sua piedade, mais a instigava a ajudá-la. Ele, cobrindo novamente o rosto – talvez para não vê-la ir-se – dividiu-se em dois: talvez só quisesse fazer-se de rogado; talvez só quisesse que alguém, uma vez na vida, implorasse e desejasse sua presença, seu bem... Tal vez.

O vento matreiro levantou, com suas garras gélidas, o cobertor esburacado de estopa, bem no momento em que a Kombi partiu, cortando o sereno lancinante, sólido e baço, com os dois feixes dos faróis, qual dois olhos de gato, lotada de fome e frio. Sentiu pesar.

O vento frio e úmido levantou o cobertor, revelando-lhe a pele curtida, azulada de frio na negrura cálida de uma malandragem velada, pele seca e gretada, coberta com camadas e mais camadas de roupas, todas rotas e insuficientes. A barba por fazer, já grisalha, confundia-se com o pelo cinzento de Mixiba, cujos olhinhos fosforescentes lembravam os faróis da Kombi.

E Mixiba, grato, grato como era, enrodilhou-se em sua barba, a tremer, num ronronar monocórdio e confortável, embora entrecortado pelo frio, a arrepiar os pelos, sujos mais ainda macios, todo magreza, fome, frio e gratidão.

---- Não, Mixiba, amanhã melhora, o tempo... se eu fosse com eles você se ficava, e era aí que tudo ia pro brejo.

---- Ron ron ron ron ron ron ron ron ron ron ron...

 

Bruno Walter Caporrino

São Paulo, 10 de outubro 2006

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