domingo, 10 de maio de 2020

À guisa de índice


Foto: Bruno Walter Caporrino
Caos! Uma cidade esbaforida esbarra em si mesma a cada esquina, deglutindo-se, devorando-se, como num certo quadro de Goya. Tiros, antes inaudíveis – porque nunca os quis ouvir – gritos mudos – porque nunca os quis gritar –, irrompem e deflagram, cortando a calada qual lâmina fria. Uma Leviatã tropical (página 5)  ensandecida brada aos quatro pontos cardeais (vermelhos de sangue) sua empáfia, sua prosápia prosopopéica, elitista e excludente. Tomada pelo pânico de que se fez vítima voluntária, a cidade solitária realça suas feições, e perde as papas que ainda guardava em suas línguas de concreto. Ruge, a ouvir, entre buzinas e sirenes, as Balas perdidas (página 15), que não olham a quem atingem, seja um pobre Mixiba (página 26), seja um pobre trabalhador: mas a Cidade teme, teme que suma dentro de sua própria periferia, sufocando-se com suas plumas, arames farpados e paetês baratos, produzidos com mão-de-obra escrava, para seu carnaval de congestionamento, pânico, azáfama e sítio. Estado de exceção, onde a regra é o caos. E a multidão foge pelos elevadores, Serviço e social (página 35), acotovelando-se, rumo aos ônibus incendiados,  fugindo de um inimigo invisível – porque, embora seja vaidosa, recusou qualquer espelho. Presente de grego! Mão-de-obra barata, pontes e viadutos, camelôs e Salas São Paulo: um Cavalo de tróia (página 44) incendiário fulmina a colméia. Suicídio coletivo. Na via crucis hedionda de seu cotidiano sorumbático, a multidão não se vê a si própria, e, por isso, não sabe de onde vem aquele inimigo distante, “estranho”, que a ameaça de chofre com bombas incendiárias e policiais assassinados. O troco. Repressão perversa. Uma guerra cotidiana transformou sua paz belicosa em uma batalha silente, lisérgica, homérica: nada além de homens. Só homens. Uma guerra surda exacerbada no dia em que as peças brancas e pretas acirraram o jogo e deram xeques-mates dramáticos. Blefe? Guerra? Uma dinâmica sádica embala a Marcha fúnebre (página 62) quotidiana - sem Chopin. E a multidão abandona o coletivo, então em chamas, e digladia-se, formigueiro incônscio de sua desdita, fugindo de si mesma: Para além do bem e do mal (página 70). Nada de novo no front: nessa guerra, chamada Estado de São Paulo, a vítima é o carrasco. E tudo voltou à normalidade, na semana seguinte. E tudo voltou à sua ordem: o sangrento esquecimento. Essas páginas, entretanto, não ousam não permitir que mais um Carandiru suma do mapa – da memória, do tempo paulistano. Pretende-se um monumento ao Mal-estar (página 82), onde o homenageado é você. Todos nós. E onde o mote é nossa guerra, de nós todos. Fiat lux! (página 89).

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