sexta-feira, 15 de maio de 2020

Balas perdidas



O frio viscoso do sol tornava tudo mais nítido, mais colorido, e realçava a negrura densa de seus ondulados cabelos de graúna. O vento fazia-lhe carícias ríspidas com suas mãos gélidas, ressecando a pele de seu rosto jovial.
Estava impaciente. O ponto lotado, o frio do vento, o calor do sol e a demora do ônibus tornaram-na tensa.
--- Desculpe.
Assim falou, um tanto irritada, a moça que esbarrou em seu braço ao passar apressada. “Desculpe!”. O tom agressivo da escusa mais parecia uma artimanha para dizer educada – e cinicamente – “sai da frente!”.
“Desculpe o cacete, galinha!”. Ficaram ainda mais belos os azuis de suas janelas, quando guarnecidos por cenhos entrecerrados com fúria. E o vento a gelar o suor que o sol produzia. Tensão.
Ao contrário do rotineiro caos - do caos que estava na ordem do dia -; ao contrário do pandemônio das barracas de camelô e do stress produzido pelas barraquinhas de CD’s, uma tensão velada impregnava-se aos poros da cidade, corcunda ante o peso de sua desdita, qual um Atlas decrépito a suar medo. Olhares tensos e movimentos esbaforidos preludiavam uma correria estapafúrdia.
E o ônibus que não chegava! Haveria, de fato, a possibilidade de que ficassem sem ônibus, de que a massa se deixasse ficar sem coletivo, de que o coletivo ficasse sem ônibus? Seria mesmo essa massa o público de seu individualismo pusilânime?
Um caos teria tomado conta da cidade. Helicópteros e viaturas: um zunir esdrúxulo de sirenes para todos os lados musicava a tragi-comédia que se desenrolava sob os olhos céticos e cinzentos, vítreos, dos prédios.
Mas ela não se desesperava, apenas irritava-se, passiva, com o caos que lhe assediava. Boatos de saques, universidades metralhadas, metrô fechado e toda aquela gente sendo mandada, em pânico, para suas casas, nada disso a ameaçava: apenas irritava-se com a quebra da rotina, aquela rotina mecânica que tanto lhe fazia bem, porque detestava ter de tomar decisões, porque detestava ter de improvisar, de tão adicta que estava à sua rotina.
--- Balinhas, olha a bala! Halls, um reals!
Irritante, o ar encrespava-lhe os belos cabelos. Irritadas, as pessoas acotovelavam-se pelo passeio, tensas, preocupadas com a guerra que elas mesmas criaram em suas cabeças.
Enfim! Um ônibus! Mas não, acabrunhada, lembrou-se de que os seus são “verdinhos”, e não cor de laranja. A multidão avançou para o ônibus superlotado como um afogado se lança à bóia salva-vidas, empurrando-a, “os desgraçados!”
Recolheu os cadernos que caíram, abaixando-se, a calça jeans com lycra deixando à mostra curvas perfeitas...
--- Uh!, que delícia que delícia que delícia! Olha lá pessoal, essas balas são uma delicia! Hortelã e Eucalipto! Delicia delícia delícia!
Pensou, hipocritamente indignada, que fosse com ela, num primeiro momento. Mas irritou-se, ultrajada, quando notou que era só o pregão malicioso do “mulatinho” que vendia balas.
Estava naquele ponto, naquele mesmo, desde as seis. O faturamento teria sido razoável, se a fome não tivesse apertado ao ponto de empregá-lo em um sanduíche.
“Mas ta valendo, de barriga cheia o mundo é mais colorido”. O cabelo cortado à escovinha, camisa do FDM, tênis da galeria. Boa apresentação era fundamental.
--- Porque você sabe como é né, eu trabalho com o público...
O tabuleiro de madeira, preso ao pescoço por uma corda, tinha sido presente do finado avô, marceneiro de mão cheia e barriga vazia. Quantos anos tinha aquele caixote mesmo? Todos, todos os seus, a idade de seu mundo.
Caixote, como era chamado, vendia balas em ele a tiracolo desde que se entendia por gente. E entendia-se bem com aquele seu fiel amigo.
Os olhos astutos percebiam, entre a multidão, aquele rapaz que ia encontrar-se com sua namorada, aquela secretária que não teria tempo para escovar os dentes depois do almoço... e acertava!
--- Balas refrescantes! Halls é um reals! E mal e mal ia levando a vida. Nas costas...
O ponto lotado, o olor a pânico, e o som estrídulo e metálico das portas sendo baixadas... mau dia para vendas. No próximo, iria ele também, e, se não estivesse muito cheio, iria conquistando os clientes no caminho mesmo.
Ei-lo, o bojudão, pesadão, cansadão, o buzão. Cheio até dizer chega! Como um pedaço de carne jogado em um lago repleto de crocodilos, foi devorado pela multidão afoita por degluti-lo por dentro.
O ônibus. Provavelmente o último, pois havia boatos sobre retirarem-nos das ruas, devidos aos veículos sofrerem risco de serem incendiados pelas quebradas alquebradas daquele canto de Brasil. A multidão uniu-se num bloco coeso de caos e suor.
E ela ali, que gatinha! Vai entrar no mesmo ônibus que ele. De calças justíssimas, mais irritada do que antes, subiu ao coletivo na sua frente – cavalheiro.
Os minutos escorreram pelo asfalto, enquanto o ônibus engolia, glutão, os candidatos a um lotezinho, por menor que fosse. Não houve jeito, teve de deixar muitos nos degraus, e muitos para trás...
“No trem, meu bom, é assim, é o que é. Então centenas vão sentados, e milhares vão em pé...”. Caixote não pôde deixar de recorrer a essa poesia urbana, quando o asfalto moveu-se debaixo do estertorar perpétuo do motor exausto.
Mas Caixote era intrépido, e divertia-o o fato de viajar nos degraus da porta aberta de um entardecer frio. Um frio diferente que, estagnado, cristalizava tudo ao passo em que tudo tornava mais nítido.
O vento frio acariciava-lhe o rosto pardo, de moleque ainda. Caixote desbravava a selva de pedras e reinava em seus meandros como um mateiro, a guia no pescoço. Passando a ponte por baixo de seu pé esquerdo – aquele que ficou dependurado por não haver onde colocá-lo no degrau, - sentiu-se em casa. Ufa!
E o ônibus superlotado zingrava as ruas já desertas, fedendo o pavor de um dia em que Sampa parou. Levava seu alarido sudorento pelas ruas frias de um lusco-fusco desértico, álacre, célere e abarrotado.
Mas as pessoas começaram a descer. E Caixote perdeu-se de sua musa deliciosa, que foi engolida pela turba que pisoteava, truculenta, seu caixote.
De ponto em ponto, fugitivos de uma guerra imaginária abandonavam o coletivo, e pisavam o asfalto sujo como se fosse a última vez. Com o cair das trevas pousou sobre as cabeças um desânimo arrebatador, como se tivessem, todos, perdido uma guerra.
Não havia mais motivo para que Caixote se deixasse ficar dependurado na porta.
--- Sai daí moleque, vou fechar!
Irritado e apreensivo, o motorista do coletivo parecia adentrar uma zona de guerra. Portas fechadas, janelas trancadas, ruas vazias... E o combustível do ônibus para acabar, porque consumido em mega-congestionamentos fúnebres, leviatânicos.
Mais vazio, o coletivo deixou o asfalto para rodar sobre buracos. E entre um solavanco e outro, eis que o caixote cai-lhe bem no DM da galeria, novinho, branco-vermelho.
--- Merda.
Agora sim Caixote irritou-se. E, ainda irritado, chutou o caixote para baixo do banco do cobrador, no exato momento em que o ônibus estacou bruscamente.
---- Vai filha da puta, abre essa porta!
Foi isso mesmo o que ouviu? Caixote não acreditou em seus olhos, quando viu entrar pela porta dianteira um capuz armado cobrindo um homem, seguido de dois outros, com baldes.
--- Desce todo mundo, já! Desce! Abre a porta aí motô!
O pânico fez-se deus e reinou absoluto no interior do coletivo. Agarrado pelo cobrador, Caixote deixou-se levar, atônito, para fora do coletivo, esquecido de si, do seu caixote.
As janelas de emergência foram escancaradas, e o pânico deixou o veículo, grudado ao bradar dos passageiros, que escorria pelas frestas, empurrando-se e gritando. A calça jeans com Lycra da musa de Caixote prendeu-lhe, no entanto, à moldura da janela.
--- Aqui, põe o pé aqui! Um herói, Caixote deu as costas para sua princesa desesperada, que gritou quando o som abafado da gasolina em combustão se fez acompanhar por um clarão mouco, dentro do ônibus.
Inacreditável! Antes que pudesse ver, os três homens haviam sumido, e o ônibus era tomado pelas chamas avassaladoras, famintas, que crepitavam satisfação ao devorarem-no.
--- Você ta legal?
Apavorada, ela assentiu, as mãos trêmulas, lágrimas reluzentes nos olhos azuis a refletirem o fogaréu. Entre gritos e imprecações, a multidão debandou, ficando apenas alguns curiosos espectadores nervosos da derrocada de sua rotina, da carbonização de suas vidas ordenadas. Do fim do mundo, no fim do mundo.
Era o fim! O que fazer? Ah, esse pessoal dos direitos humanos não vê isso? Que ousadia! Por mim, matava tudo...
O espetáculo era tenebroso. O oscilar bruxuleante das chamas lisérgicas era surpreendente como um balé: devoravam o ônibus em minutos.
E assim deixou-se ficar nosso Caixote, alheado a tudo, perplexo, sem saber o que dizer, pensar, ou fazer, até que um brado do motorista o despertou de seu idílio ígneo.
--- Vai pra casa ô moleque, quer virar churrasco?
Despertou bruscamente. Cadê ela, sua princesa? Tinha ido embora, a pé, sozinha, numa pavorosa treva fria de uma noite velada, famigerada, favelada batalha gerada pela cotidiana guerra do ganha-pão.
O sonho incandescente em que se deixara consumir boquiaberto acabou, como que apagado com água quando, despertado pela crueldade ríspida da vida estúpida, personificada pelo cobrador atrabiliário, deu-se conta do mundo que queimava-se.
O sonho acabou quando Caixote acordou, sem cavalo, sem princesa, sem seu caixote. O caixote queimava, desvanecia-se, como seu pobre avô de mãos calejadas, e o doce das balas que derretiam dentro do ônibus contrastava com o amargor da vida besta e desgraçada! Era o fim!
As mãos nos bolsos, Caixote resignou-se a ir a pé os dois quilômetros restantes, sem caixote, sem princesa, sem cavalo, sem cidade, sem amparo. Sem futuro e sem motivo para ter um.
--- A vida é essa merda mesmo.
O fogo a arder, límpido e esguio, entreteve sua mente pelas ruas desertas de fios emaranhados e miséria decretada, até a porta de madeira de sua casa de único cômodo, onde o esperava, de braços cruzados e boca aberta, a privação.
E a cidade acontecendo, lá fora, em seu silêncio apavorado, não importava mais. Só lhe importava o fogo que consumia o ônibus e distraía sua mente, quando a noite – em que dormiu mal por causa do frio -, veio assolar-lhe a existência pobre, com suas garras gélidas, por baixo do cobertor fino e esburacado.


 São Paulo,15 de maio de 2006

Um comentário:

  1. "De barriga cheia o mundo é mais colorido"

    "Marceneiro de mãos cheias e barriga vazia"

    "Favelada batalha gerada pela cotidiana guerra do ganha pão"

    "A vida é essa merda mesmo"

    Espetacular, Bruno!
    Amei!
    Shhooowwww, publica, publica, publica...

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