“Pós-guerra do
desconserto”
Autoria: Bruno Walter Caporrino
Roteiro, fotografias, edição: Bruno Walter
Caporrino
Curta metragem documental videoclíptico feito
com fotografias preto e branco 35mm do autor
Trilha sonora: “Blue shadows in the street”, de
Dave Brubeck Quartet, álbum “Time further out”.
Duração: 5 minutos e 40 segundos
P&B
Situação: Praça da Sé, centro de São Paulo. Link para visualizar no YouTube:
https://youtu.be/Ub9C7ybPFQA
O objetivo de minhas fotografias e contos sempre foi estimular uma reflexão sobre a arte, narrativa e fotográfica como
construto narrativo vário, à luz (já que se trata essencialmente de luz) dos
discursos construídos sobre "alteridades", visando explorar visões não
sobre "os Outros" - e um debate sobre isso será iniciado aqui em
breve - que não existem senão como funções (f) de determinados nós, mas sim
sobre o ato de fotografar como um ato de aproximação ou negação dos outros
através da maior ou menor projeção do observador e seus valores no mundo que
apreende através da fotografia.
Assim, desde
que comecei a me arriscar pelo universo da fotografia, nos idos de 2006,
idealizei um roteiro para um curta(curtíssimo)-metragem, de 1 minuto de
duração, intitulado "Pós-Guerra do Desconcerto".
A ideia surgiu em minha
mente em um dos inúmeros dias em que eu passava horas errando pelo Centro de
São Paulo, onde ainda morava (me escondia?). Naquele período, eu estava
finalizando a edição do (até então) inédito livro de contos intitulado
Tristes Episódios, cujos episódios, inspirados em fatos
transpirados por mim na realidade, giravam todos em torno dos fatídicos ataques
do PCC (Primeiro Comando da Capital) às Polícia Militar e Civil, e vice-versa,
ocorridos em maio daquele ano, de modo que o livro de contos foi quase que
escrito ao vivo, nas madrugadas em que voltava de casa carregado com a energia
do que via nas ruas desertas onde uma guerra muda (que, infelizmente, não mudou
nada) deixava as pessoas ainda mais mudas.
Era um período de
convulsão social, e episódios trágicos - mais do que tristes - tiveram como
palco a Praça da Sé. Em uma das tardes frias de maio em que flanava pelo
centro, depois de escrever o livro - como eu disse, estava editando o material
- dei por mim em plena Praça da Sé, onde sempre acabava chegando para usufruir
do convívio solitário com as multidões que, ali, mais solitárias do que nunca,
sempre foram ,para mim, mais honestas e ricas, como sempre, que o roteiro veio
à minha mente. Veio com nome, trilha sonora (o objetivo era usar a música Roads do Portishead),
sequência, tudo.
Foi concebido justamente
como um filme de 1 minuto montado a partir de fotografias preto e branco
analógicas. Mostrei a idéia ao meu grande amigo Meduza, que gostou e propôs de
fazermos. Mas... só agora (e por nenhum minuto sequer esqueci a idéia) senti
que possuía fotografias minimamente utilizáveis...
Das fotografias - e,
portanto, do sentido de tudo isso
Toda obra deve ter uma
biografia. Mais do que seu autor, a obra deve ser contextualizada. Qualquer
obra. Arquitetos, críticos de arte, e engenheiros, todos devem concordar
comigo. Bem, o fato é que essas fotografias dos moradores de rua que sempre,
sempre, sempre ocuparam minha atenção, minhas lentes, minha mente, minha pena,
dos quais sempre fiz protagonistas em qualquer tentativa de expressão que eu
conseguisse (porque sua marginalidade é muito mais do que se pensa
e enxerga nos poucos momentos em que as pessoas os pensam e os
enxergam...) realizar, foram feitas sob uma ótica especial.
Todas as tomadas foram
feitas em película Ilford, ISO 100, com a Zeiss Ikon Contaflex que eu venero
tanto. E foram feitas majoritariamente em 2011. Mas, deve perguntar o leitor:
como, morando no Amapá, em 2011, você fez fotografias de moradores de rua na
Praça da Sé? Nas poucas vezes que eu visitava São Paulo, onde ia para
encontrar a Musa e Mecenas Mari, detinha-me na velha Praça onde me formei
verdadeiramente como antropólogo e indigenista (porque é espaço de minhas
primeiras e mais marcantes experiências e reflexões sobre a alteridade, sobre
ser outros), com a Zeiss a tiracolo e uma que outra película com algumas poses
ainda por deflagar.
Vindo de Belém, Afuá,
Breves, Serra do Navio, Oiapoque, com mais da metade das películas deflagradas,
eu aterrisava em São Paulo com algumas poses ainda por fazer. E aproveitava
para documentar-me, a mim mesmo, através de minha percepção sobre os velhos
moradores que sempre ocuparam minha atenção...
Esse fato ganha outro
valor quando as películas, ainda inteiras, sem cortes, são observadas: vê-se
fotografias dos wajãpi, na terra indígena wajãpi, onde fotografo a maior parte
do tempo, carregando açaí ou panakus com caça, e, abruptamente, prédios,
cornijas e estatuária da Sé, a estátua do missionário catequizador dos índios e
inaugurador da pobreza e da marginalidade oprimida que rodeia sua própria
estátua, José de Anchieta.
Esse choque, aparentemente
abrupto, não me surpreendeu. Descobri que, de fato, a fotografia pode nos
permitir entrever os vieses de nossos próprios olhares. Descobrir-se a si mesmo
através de uma observação mais detida sobre como se observa o mundo, e os
outros, é missão compartilhada entre a fotografia e a antropologia.
O fato é que os indígenas
catequizados pelo grande instaurador da megalópole desvairada na qual os netos
desses indígenas não têm espaço senão nas periferias, oprimidos e ameaçados, ou
ao chão, ao relento, às margens em pleno Centro, retratados no filme
fotográfico lado a lado com os indígenas wajãpi ou com os caboclos de Afuá em
cujos estaleiros me detenho a investigar sua arte náutica tão indígena, são o
contraponto icônico em torno do qual a mensagem se dá.
Depois dessa longa
explicação, (e arte, se é boa, prescinde de explicação...), segue o filme (que
não é propriamente um filme, mas sim um método para expor fotografias
concatenadas em uma sequência narrativa corroborada, como um cânon, pela trilha
sonora).
Abaixo do filme, para quem
quiser conferir, publico também o roteiro, tal como foi concebido originalmente
em 2006.
O curta consiste
basicamente na transmissão de um sentimento especial, que tive todas as vezes
em que andei pela praça, e observei seus habitantes, e sua desolação. Por isso,
a idéia é a de que seja um vídeo-clip. Mudo.
Tive a impressão de que
todos, ali, tiveram suas vidas roubadas de si mesmos, tal como, parece-me,
ocorre após uma guerra. Tive a sensação de que o mundo simplesmente se
desfizera, não apenas para mim, que saía de minha normalidade, mas também para
eles, como deve ser quando todos seus parentes morrem queimados por napalm, e
você, sozinho, depois de ver tantas atrocidades, refugia-se do mundo, no mundo
– que é a própria loucura.
Eles vagam, ao léu,
ostentando nos andrajos com os quais cobrem seus esmarridos corpos, toda a
miséria a que o olhar comum pensa que foram relegados. Soldados de uma guerra
perdida, sem nação, condecorações, armas; sem bandeira sobre o caixão. Sem
nomes, sem memoriais: dos quais a sociedade, em sua batalha hecatômbica pelo
pão, não quererá se recordar. Para nós, engomadinhos de estômagos e bolsos
forrados. Porque é muito mais do que isso. Exercem sua humanidade e sua
capacidade de agir, criam códigos, estabelecem signos, interpretações,
condutas, valores. Relações. Estar à margem (do sonho burguês do castelinho da
Disney) não é estar fora da humanidade: o que me atrai nessas pessoas é
justamente mostrarem, concretamente, que é exatamente o contrário...
Mas esse fascínio que eles
despertam em mim não faz com que os exotize, ou idealize. Sua vida é dura.
Sinto-me, ali, como se uma
bomba tivesse caído, e congelado o tempo, como se vivêssemos, todos, no vácuo
que sua deflagração deixa.
Andrajos. Pobreza. Sangue
espirrado contra a parede central da Catedral – ao lado direito da escada.
Ainda lá está: podem conferir.
Mas eu, sinceramente, ao
olhá-los nos olhos – coisa a que o olhar comum teme absurdamente – vejo,
apenas, inadequação, mal-estar, dúvida e inquietação.
Isso faz deles verdadeiros
filósofos, para mim.
São dúvida, inquietação,
são questionamento: o questionamento encarnado em seus ossos sem carne. Em suas
barbas grisalhas, em seus conffabulares fabulsosos, acerca das vultuosas somas
de sua miséria (uma cachaça, um relógio quebrado, um par de sapatos), levam
suas vidas, e todas as nossas, no lombo. Um pregão de fome, em que se negocia
sobras, migalhas, com o afinco de um acionista da Microsoft.
Vagam, e confabulam.
Alguns, seminus, dialogam
com os coqueiros, personagens imaginários, companheiros de sua solidão pública,
em pleno centro da cidade mais esbaforida e movimentada do Brasil.
Certo sábado, estando eu
por lá, vi dois homens a confabularem, como se planejassem um crime.
Acheguei-me, de manso, e o que ouvi foi uma discussão metafísico-religiosa
digna do medievo: deus, existindo todo em sua grandeza, não poderia caber no
cérebro humano, e nem nas páginas da Bíblia.
Um homem, jovem, cabelos
tingidos de loiro, malgrado a negritude de sua tez, trazia ao ombro uma bolsa
rosa, e calçava apertadíssimos scarpins vermelhos. Rebolava, afetando uma
feminilidade impossível, e, em seu sorriso, em suas gargalhadas, dirigidas a
personagens imaginários aos quais dirigias gritinhos e gracejos, eram
verdadeiramente plangentes.
Nesse mesmo dia, a praça
parecia mais desolada, devido à pressão atmosférica, e ao ar opresso que dela
decorria. O peso do mundo parecia todo estar ali, centrado no marco central da
praça, que aponta para todas as direções de onde vieram esses homens: minas,
Goiás, Curitiba...
Nesse dia, enfim, vi o
homem afeminado, cuja esquizofrenia causava uma esquizofrênica sensação de
compaixão e medo. Pregadores berravam sua fé – captei uma preleção bonita,
sobre Paulo e sua conversão. O homem não mencionou Dimas.
Havia uma verdadeira fila
deles, que disputavam o quadrado de giz que era sua igreja. Sobre a pedra.
Sobre Pedro.
Muitos outros pregadores
disputavam a atenção dos mendigos, em diversos quadrados. Em torno de um, que
jazia bem sob a sombra da enorme e ridiculamente irônica estátua do jesuíta
conversor desta gente, aglomerava-se muita gente: ele dispunha de uma caixa de
som e um microfone.
Mas, pasmem! Ao lado,
exatamente ao lado dele, havia um grupo a tocar samba, com pandeiro, triângulo,
cavaco. Muitos homens puseram-se ao redor, batucando em pastas de documentos e
latas de lixo arrancadas dos postes.
Um deles, de boné,
dançava, como em um transe, a sorrir toda sua dor. Juro-lhes: era um sorriso de
dor. Uma dor alegre, pungente, e dançava, e dançava, e dançava...
O pregador, ao lado,
enfurecia-se contra os infiéis. Jovens passaram em seus skates, prostitutas
passaram, a rir-se do dançarino frenético.
E o mundo havia acabado,
ali.
E a guerra que engendrou
seu fim parecia ser perene. O dia, com uma camada finíssima de nuvens a filtrar
o sol, de mormasso, seria eterno.
Modus Facendi
A idéia é fazer um
curta-documental sem som algum, além de Roads: chegar à praça, e filmar.
Diversos takes. Depois, editar, e inserir a música. O clipe seria a estética
das impressões que eu queria tanto transmitir. Pensei em filmar os pregadores,
e seus quadrados de giz. O jesuíta, ao pé do qual se sentam netos de índias
estupradas por ele mesmo. Seus bisnetos.
A edição consistiria na
montagem de minúsculos quadros, takes, estórias inter-cruzadas, algo assim:
Tudo em ritmo normal,
P&B, com muita abertura, para que, com essa estética estourada e chiaroscura, tenha-se a impressão de algo onírico.
Dia nublado e quente, com alta pressão. Velocidade: Slow-Motion, com leves
acelerações, nos pequenos quadros de closes.
1 – Close: torre da
Catedral.
2 – Close: pregador, com a
bíblia nas mãos. A Catedral ao fundo.
3 – Panorâmica: a Praça.
Pode ser um giro, do alto do marco central, algo espiralado, que comece do chão
(uma rosa dos ventos de mármore), e vá subindo, até tocar com a objetiva os
rostos dos pregadores, dos mendigos, dos passantes – com slow-motions aí – e,
por fim, as torres gloriosas da Sé.
4 – Close: o rosto de um
mendigo.
5 – Close: a parte do
marco central que indica Goiás.
5 – Close: o rosto de
outro mendigo.
6 – Close: outra faceta do
marco, indicando Minas.
7 – Panorâmica. Foco nos
confabulantes.
8 – Close: homem dormindo.
9 – Plano americano: homem
a falar sozinho.
10 – Pregador, a falar
sozinho.
11 – Close: o rosto de um
mendigo.
12 – Close: outra faceta
do marco. Paraíba.
13 – O pagode.
14 – Close: o sorriso do
dançarino frenético.
15– plano seqüência videoclíptico, acelerado:
Torres da Catderal,
Pregadores,
Personagem a falar
sozinho,
o Pagode,
o Jesuíta.
16 – Fade.
Publicado originalmente no extinto blog Hileia Mundi, em janeiro de 2013.
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